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27/07/2021
Catástrofe na Igreja..
E quando parte do Vaticano a orientação de combater a Santa Missa de sempre, se não podemos dizer que uma abominação entrou no templo santo, com certeza está próxima a eliminação do Sacrifício Perpétuo.


HÁ HOJE UMA CRISE NA IGREJA

Publicado em 

Pe. Mathias Gaudron, FSSPX

  1. HÁ HOJE UMA CRISE NA IGREJA? 

Seria preciso cobrir os olhos para não ver que a Igreja Católica sofre uma grave crise. Esperava-se, nos anos 1960, na época do Concílio Vaticano II, uma nova primavera para a Igreja, mas o que aconteceu foi o contrário. Milhares de padres abandonaram seu sacerdócio; milhares de religiosos e de religiosas retornaram à vida secular. Na Europa e na América do Norte, as vocações se tornam raras, e não se pode nem mais computar o número de seminários, conventos e casas religiosas que tiveram que fechar. Muitas paróquias permanecem sem padre, e as congregações religiosas devem abandonar escolas, hospitais e asilos para idosos. “Por alguma fissura, a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus” – essa era a queixa do Papa Paulo VI, em 29 de junho de 1972 (1).

Sabe-se quantos padres abandonaram o sacerdócio nos anos 1960? 

No conjunto da Igreja, entre 1962 e 1972, 21.320 padres foram reduzidos ao estado leigo. Não estão incluídos nesse número aqueles que negligenciaram pedir uma redução oficial ao estado leigo. Entre 1967 e 1974, trinta a quarenta mil padres teriam abandonado sua vocação. Esses fatos catastróficos podem, com algum esforço, ser comparados aos acontecimentos que acompanharam a auto-intitulada “Reforma” protestante do século XVI. 

Há um desastre análogo nas congregações religiosas? 

Quebec, província francófona do Canadá, era, no início dos anos 1960, a região que contava, proporcionalmente, com mais religiosas no mundo. O Cardeal Ratzinger conta, enfatizando que é só um exemplo: 

“Entre 1961 e 1981, por causa das saídas, dos falecimentos e da paralisação do recrutamento, o número de religiosas passou de 46.933 para 26.294. Uma queda de 44%, que parece impossível de conter. As novas vocações, com efeito, diminuíram, durante o mesmo período, ao menos 98,5%. Verifica-se então que uma boa parte dos 1,5% restantes é constituída por “vocações tardias”, e não por jovens, a ponto de as simples previsões permitirem a todos os sociólogos estar de acordo sobre esta conclusão brutal, porém objetiva: em breve (salvo reversão de tendência muito improvável, ao menos ao olhar humano), a vida religiosa feminina tal como conhecemos não será mais que um suvenir do Canadá.”(2)

A situação não melhora hoje, e não se poderia considerar que a crise agora ficou para trás? 

Havia na França, nos anos 1950, por volta de mil ordenações sacerdotais por ano. Desde os anos 1990, não há mais de cem por ano. Havia 41 mil padres diocesanos na França em 1965. Não havia mais que 16.859 em 2004, e a maioria tem mais de 60 anos. O número de religiosos no mundo continua a diminuir(3). 

Essa crise atinge também os fiéis? 

Em 1958, 35% dos franceses assistiam à missa dominical: hoje, são menos de 5%, e freqüentemente idosos. Em 1950, mais de 90% das crianças nascidas na França eram batizadas; hoje, menos de 50% o são. 

Não há, porém, um aumento, na França, de batismos de adultos? 

Alguns milhares de batismos de adultos não seriam capazes de compensar uma baixa de centenas de milhares de batismos de crianças (ainda mais porque a persistência dos novos batizados normalmente deixa muito a desejar). 

O caso da França é realmente característico? 

Encontra-se o mesmo desinteresse pela Igreja na Europa. Entre 1970 e 1993, 1,9 milhão de alemães oficialmente abandonou a Igreja Católica. O ódio ou a cólera não são os motivos mais freqüentes, mas simplesmente a indiferença. A Igreja não quer dizer mais nada aos homens, não tem mais importância em suas vidas; abandona-se a Igreja para economizar o imposto eclesiástico. Nesse ritmo, a religião católica vai virar a religião de uma pequena minoria. A Alemanha, segundo Karl Rahner, corre o perigo de virar uma terra pagã de passado cristão com alguns vestígios de Cristianismo. 

Não se pode dizer que essa terrível crise é apenas local, atingindo a Europa Ocidental e a América do Norte, mas poupando América Latina, África e Ásia, onde, ao contrário, o Catolicismo parece particularmente dinâmico? 

Alguns números poderiam fazer crer que a crise é só local. O Anuário Pontifício sublinha que o aumento de ordenações e de seminaristas nos países de Terceiro Mundo compensa grandemente a baixa constatada nos países ocidentais. Na realidade, a crise é universal, mesmo que não se manifeste por toda parte do mesmo modo (os países pobres, onde o sacerdócio representa ascensão social, recrutam muito facilmente vocações; mas de qual qualidade?). A América Latina, por exemplo, que muitos consideram bastião do Catolicismo, está atualmente em vias de passar ao protestantismo, mais rapidamente do que a Alemanha do século XVI. 

Temos estatísticas para ilustrar essa protestantização da América Latina? 

Às vésperas do Vaticano II, 94% dos brasileiros eram católicos. Não eram mais que 89% em 1980; 83% em 1991; 74% em 2000 (e menos de 60% nas grandes cidades: São Paulo e Rio). Os protestantes, que representavam 3% da população em 1900, são atualmente 18%, e seu número não para de crescer. Cinco igrejas pentecostais são criadas em média no Rio de Janeiro a cada semana. O Pe. Franc Rodé, Secretário do Conselho Pontifical para o Diálogo com os não crentes, estimava que em 1993 a Igreja perdia 600 mil fiéis latino-americanos a cada ano. Outras fontes fornecem estimativas mais graves ainda: 8 mil católicos passariam a cada dia para as seitas.1 Considera-se que, no Chile, desde 1960, 20% da população entrou para seitas protestantes; e na Guatemala, cerca de 30%. 

  1. ESTA CRISE É UMA CRISE DE FÉ?

A Fé cristã parece em vias de desaparecer da Europa. As verdades fundamentais, como a fé em Deus, a Divindade de Jesus Cristo, o Céu, o Purgatório e o Inferno, são cada vez menos aceitas. O mais inquietante é que esses artigos de Fé são negados mesmo por pessoas que se dizem católicas e freqüentam regularmente a igreja. 

Temos números mais precisos para ilustrar essa crise de Fé? 

Sem serem perfeitamente confiáveis, as sondagens são representativas das grandes tendências da sociedade. Segundo uma sondagem recente4, somente 58% dos franceses creem na existência certa ou provável de Deus (contra 61% em 1994); 65% (e 80% entre os jovens de 18 a 24 anos) dizem não crer de jeito nenhum num Deus em três Pessoas; e 67% não creem de nenhum modo no Inferno (contra 48% em 1994); 12% apenas dos católicos dizem ainda crer completamente no Inferno (16% creem um pouquinho; 72% não creem nele). Mesmo entre os católicos praticantes regulares, os números são catastróficos: 23% apenas creem firmemente no Inferno, enquanto 54% não creem; ainda por cima, 34% desses praticantes regulares creem completamente que Maomé é um profeta, enquanto somente 28% não o creem ( 35% creem um pouquinho; os outros não sabem). Em 2006, apenas 7% dos católicos franceses achavam que sua religião era a única verdadeira (5). “Mede-se a amplitude da mudança se sabemos que a metade dos católicos pensava em 1952 que existia uma só verdadeira religião”, sublinha o sociólogo Yves Lambert(6). Assim mesmo, 81% dos católicos do Valais acham que todas as religiões levam à salvação eterna(7).

Que lição tirar das estatísticas? 

Esses números manifestam que a crise é primeiramente uma crise de Fé. Não somente o número daqueles que pensam pertencer à Igreja diminui, mas até a maioria daqueles que são oficialmente seus membros não tem mais a Fé Católica! Aquele que nega uma Verdade de Fé perdeu a Fé, pois esta é um todo e deve ser recebida como um todo. Se, então, 72% recusam-se a crer no Inferno, não há mesmo nem um católico para cada três que tenha a Fé. 

  1. ESSA CRISE É TAMBÉM UMA CRISE MORAL?

A crise dos costumes acompanha a crise de Fé. Embora São Paulo lembre aos cristãos que devem, pela sua maneira de viver, brilhar em meio a uma geração corrupta assim como as estrelas brilham no Universo (Fl 2,15), pode-se dizer que o gênero de vida dos cristãos atuais não difere em nada daquele dos filhos deste mundo, daquele dos incrédulos. Sua Fé fraca e esvaziada em sua substância não tem mais força para influenciar sua vida, ainda menos para transformá-la. 

Qual é a ligação normal entre a Fé e a Moral? 

O homem enfraquecido pelo pecado original tem a tendência de se abandonar a suas paixões, perdendo assim o domínio de si. A fé cristã, ao contrário, mostra-lhe o que Deus espera dele e como se deve conduzir a vida conforme Sua Vontade. O homem sabe pela Fé o que ele pode esperar se observar os Mandamentos de Deus, mas também as penas com as quais Deus o punirá se ele se desviar. A Fé e os Sacramentos dão-lhe a força para vencer suas más inclinações e para se entregar todo inteiro ao Bem e ao amor de Deus. 

Quais são as conseqüências morais de uma crise de Fé? 

Se a Fé desaparece, o homem não se vê mais chamado à perfeição moral e à vida eterna ao lado de Deus. Entregar-se-á sempre mais aos prazeres desregrados desta vida. 

A atual crise dos costumes também atinge os católicos? 

É o que nós experimentamos hoje. Fidelidade, pureza, justiça, espírito de sacrifício etc. não são mais, até entre os cristãos, valores incontestáveis. Um casamento a cada três termina hoje em divórcio depois de cinco ou de dez anos; é sabido que a segunda união depois do divórcio é demandada por um número cada vez maior de católicos. A revista Herderkorrespondenz de março de 1984 dava a conhecer que, no Tirol católico, 84% da população rejeita o ensinamento da Igreja sobre a contracepção e que, dentre as pessoas de 18 a 30 anos, a plena adesão é quase nula (1,8%). No Valais, 81,5% dos católicos acham que as pessoas divorciadas e recasadas devem poder comungar(8). Na França, em 2003, um quarto dos católicos praticantes declara que, para eles, “a ideia de pecado não mais significa grande coisa”. 

  1. NÃO HÁ HOJE TAMBÉM UMA CRISE NO CLERO?

A falta de vocação sacerdotal e religiosa, tanto quanto as defecções, manifesta uma crise profunda no clero. Muitos padres perderam a Fé; eles não estão mais em condições de comunicá-la aos homens e de transmitir-lhes entusiasmo por ela. 

Qual é a real ligação entre a crise de Fé e a crise do clero? 

A crise do clero é a causa da crise de Fé entre os fiéis. Se a Fé dos católicos que assistem regularmente à missa dominical está num estado tão lamentável, a causa só pode vir de uma pregação defeituosa. Se os padres ensinassem regularmente a Fé Católica, a situação seria inteiramente outra. 

Os homens não perderam sozinhos a Fé; ela lhes foi arrancada no catecismo e do alto do púlpito. Quando, no sermão, durante anos e anos, as Verdades de Fé são postas em xeque, relativizadas ou até negadas abertamente, como se surpreender se os simples fiéis perdem a Fé? Os mais jovens até mesmo nunca a conheceram. 

Pode dar um exemplo desse mau ensinamento dispensado pelo clero? 

Hoje, não é raro que uma criança, ao fazer sua Primeira Comunhão, ignore que Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na Eucaristia; ignora porque seu pároco não crê mais nesse Mistério. Em “Como nós vivemos”, livro de instrução religiosa usado na Alemanha, pode-se ler: “Quando os cristãos partilham sua refeição com Jesus, vão ao altar. O padre lhes dá um pequeno pedaço de pão. Eles comem o pão.”(9) Esse livro de ensino religioso recebeu o imprimatur dos bispos alemães, que o autorizaram! 

A situação não é melhor na França? 

Se 34% dos católicos praticantes regulares franceses creem completamente que Maomé seja um profeta e 35% creem nisso “um pouquinho” (temos um total de 69%), nota-se que os números estão muito mais baixos entre os católicos não praticantes (21% e 22%, somando 43%). Sob esse ponto, os não praticantes são então mais católicos do que os praticantes. Isso vem evidentemente do ensino dispensado nas igrejas. De fato, vários bispos franceses deram igrejas aos muçulmanos, e o Papa João Paulo II beijou o Corão em 14 de maio de 1999. 

A crise do clero é também uma crise moral? 

A crise é antes de tudo uma crise de Fé, mas um clero cuja Fé é fraca não tem evidentemente mais a força de guardar o celibato, pois isso só é possível àquele que está animado de fé viva e de um grande amor de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é um mistério para ninguém que grande número de padres mantenha hoje relações pecaminosas com uma mulher, de modo mais ou menos público; ouve-se regularmente que um padre abandonou seu posto, confessando que não guardava mais o celibato há anos. Nesse aspecto, a situação do clero do Terceiro Mundo, cujo número está em crescimento, não é também melhor… 

Essas defecções de padres não são voluntariamente alardeadas pela mídia a fim de obter a supressão do celibato dos padres? 

É evidente que o celibato afasta muitos jovens do sacerdócio; mas, em lugar de polemizar esse assunto, seria preciso se perguntar por que numerosos homens ofereciam-se antigamente com alegria a esse sacrifício, o que não é mais o caso hoje em dia. 

  1. EM QUE A PRESENTE CRISE DIFERE DAQUELAS QUE A IGREJA SOFREU NO PASSADO?

A presente crise na Igreja se distingue das precedentes principalmente no fato de as mais altas autoridades da Igreja serem seus realizadores e continuadores, impedindo que medidas eficazes sejam tomadas para resolvê-la. 

Não houve já grandes crises na Igreja? 

Sempre houve crises na Igreja. Padres, bispos até e mesmo papas às vezes levaram uma vida contrária ao Evangelho. A imoralidade e a indisciplina do clero freqüentemente prejudicaram a Igreja. De tempos em tempos, padres e bispos se separaram da verdadeira Fé. Mas nunca os erros e a negação pública das Verdades de Fé foram propagados como hoje em dia, graças à tolerância, à aprovação e até à atividade das autoridades romanas e do episcopado mundial. Essa é a nota particular da crise atual, que é favorecida pelas mais altas autoridades da Igreja, incluído aí o papa. 

Essa nota singular da crise atual foi reconhecida pelas autoridades da Igreja? 

Paulo VI mesmo pronunciou em 1968 uma frase que veio a ficar bem famosa, ao se referir a uma Igreja em estado de “autodemolição”: 

“A Igreja se acha em uma hora de inquietude, de autocrítica, diríamos mesmo de autodemolição. É como uma instabilidade interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. (…) É como se a Igreja se golpeasse a si mesma.”(10)

(Capítulo I do livro “Catecismo Católica da Crise da Igreja”, a venda na loja da Editora Permanência)

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1. May, Georg, Die Krise der nachkonziliaren Kirche und wir, Viena, Mediatrix-Verlag, 1979, p. 50.

2. Entrevista do Cardeal Ratzinger a Vittorio Messori, A Fé em Crise, EPU, 1985, pp. 73-74.

3. Deutsche Tagespot, 13 de agosto de 1998.

4. Sondage CSA – La Vie – Le Monde, realizada em março de 2003.

5. Sondagem CSA – Le Monde des religions, outubro de 2006.

6. Reportado por l’INSEE, Donnés sociales – La société française (Ed. 2002-2003), estudo de Yves Lambert (do CNRS) sobre “A Religião na França, dos anos sessenta aos nosso dias”. O autor nota que a grande ruptura remonta aos anos 1965, com um recuo tanto das atitudes quanto das práticas relacionadas à religião. A filiação religiosa resiste, porém, num primeiro momento, e só conhece uma primeira queda nos anos 1975-1976.

7. Sondagem realizada pelo Instituto Link, setembro de 1990.

8. Instituto Link, 1990.

9. Wie wir Menschen leben, Ein Religionsbuch, Herder, 1972, p.78. O imprimátur foi dado em 17 de janeiro de 1972 pelo Vigário-Geral da diocese de Fribourg-en-Brisgau, D. Schlund.

10. Paulo VI, Discurso de 07 de dezembro de 1968, DC no 1531(1969), p.12

catolicosribeiraopreto.com

 


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