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Igreja
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07/10/2020
Mário diz que somos todos irmãos!
Mas eu não sou irmão de muçulmanos, budistas, espíritas, protestantes, ateus, adoradores vacas, sapos e macacos, nem dos pachamama, de todos os que não são batizados na Igreja Católica.


Fratelli tutti?

 

 

A terceira encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti, assinada, em Assis, a 3 de Outubro, parece quase o documento conclusivo do seu pontificado, uma espécie de testamento político. Porque a encíclica é política, como todo o pontificado do Papa Francisco. Um dos mais fiéis colaboradores do Papa Francisco, Andrea Tornielli, director de comunicação da Santa Sé, ao apresentar a encíclica, não usa o termo político, mas o termo “social”, que é, substancialmente, a mesma coisa, e escreve: «A nova encíclica Fratteli tutti, apresenta-se como um resumo do magistério social de Francisco e recolhe, de modo sistemático, as ideias oferecidas por pronunciamentos, discursos e intervenções dos primeiros sete anos de pontificado».

Uma origem e uma inspiração – diz Tornielli – é, certamente, representada pelo documento sobre a Fraternidade humana em prol da paz mundial e a convivência comum, assinado, em Abu Dhabi, a 4 de Fevereiro de 2019, juntamente com o Grande Imã de Al Azhar, Ahmad Al-Tayyeb.

Al-Tayyeb é um dos autores mais citados na encíclica e, não surpreendentemente, no primeiro comentário que sobre ela fez num twitter, escreveu que «é uma mensagem que restitui à humanidade a sua consciência».

Al-Tayyeb e o Papa Francisco têm uma mesma consciência da humanidade? Mas em que sentido? O Papa Bergoglio explica-o: «Sonhemos como uma única humanidade», «cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos» (n. 8).

A verdade absoluta não é Jesus Cristo, em cujo nome e em cujo baptismo os cristãos são irmãos. A fraternidade é um valor superior ao próprio Cristo, porque, segundo o Papa Francisco, seria capaz de colocar de acordo católicos, muçulmanos, budistas e os próprios ateus, que também têm fé e convicção próprias.

O Papa Francisco, no início da encíclica, recorda a visita de São Francisco de Assis ao Sultão Malique Camil, no Egipto, apresentando-a como uma procura de diálogo, enquanto todas as fontes da época nos dizem que São Francisco queria converter os Sultão e apoiava os cruzados que combatiam na Terra Santa. Mas o encontro entre São Francisco e o Sultão fracassou e o Papa Bergoglio parece querer demonstrar que é mais capaz do que São Francisco para levar a cabo o projecto, a começar pelo documento de Abu Dhabi.

Para realizar este diálogo, Francisco substitui os princípios da fé católica pelos da Revolução Francesa: em particular, o trinómio “liberdade, igualdade, fraternidade” (nn. 104-105). Uma utopia que nunca se realizou na história, mas da qual o Papa Bergoglio quer ser o artífice no século XXI.

“Fraternidade” e “amizade social” são palavras-chave da encíclica, desde o título, e constituem a nova forma do amor cristão. Um amor cuja medida não é a relação vertical com Deus, mas a horizontal com o próximo. A fraternidade também é chamada “solidariedade” e «a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo – afirma o Papa –, é uma forma de fazer história e é isto que os movimentos populares fazem» (n. 116).

Os movimentos populares são os marxistas da América Latina, dos quais o Papa Francisco sempre esteve próximo. Na encíclica, critica longamente os «regimes políticos populistas» e as «abordagens económico-liberais» (n. 37), bem como as «formas de nacionalismo fechado e violento» (n. 86), mas ignora o comunismo. No entanto, hoje, a primeira potência mundial é a China comunista, que se refere oficialmente a Marx, Lenine e Mao. Mas, segundo um colaborador do Papa como Mons. Sanchez Sorondo, a China é o país que, actualmente, melhor aplica a doutrina social da Igreja e talvez seja por isso que a Santa Sé deseja ter com ela relações privilegiadas. O Papa também ignora as responsabilidades da China comunista na propagação do coronavírus, excluindo que esta pandemia possa ser um castigo divino (n. 134). Contudo, todos os Papas ensinaram que as epidemias, as guerras, as fomes e todas as formas de flagelo colectivo são uma consequência do pecado dos homens.

Mas do pecado e das suas consequências, mesmo sociais, a encíclica não fala. O único pecado parece ser o de se opor à imigração, que é o instrumento para realizar a “integração criativa” (n. 41) cara ao Papa Francisco. Francisco parece criticar a globalização, mas o objecto das suas críticas é, na realidade, a gestão de cima para baixo e iníqua do projecto globalista. O que quer é uma globalização de baixo para cima estendida a todas as classes sociais e, principalmente, ao Sul do Planeta, administrada pelos movimentos populares marxistas e, talvez, pela China.

«Mas, se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples facto de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, tecto e trabalho para todos» (n. 127). Todavia, se existe um país onde os direitos humanos são violados, esse país é a China. Como silenciá-lo num documento que reivindica os direitos humanos como fundamento da convivência social?

Mas, acima de tudo, o Papa Francisco não dá nenhuma indicação sobre como realizar a sua utopia. Porém, a Igreja tem todos os instrumentos, não para realizar uma paz utópica na terra, mas para adoçar a vida neste “vale de lágrimas”. Os instrumentos são a oração, os sacramentos, o respeito pela lei natural e cristã, a profissão, privada e pública, da fé em Jesus Cristo, único Caminho, Verdade e Vida. Esta dimensão sobrenatural está, infelizmente, totalmente ausente do documento do Papa Francisco. E o facto de este apelo à fraternidade planetária ter sido lançado, precisamente, quando uma guerra fratricida dilacera os líderes da Igreja, não contribuirá, certamente, para o seu sucesso.

Roberto de Mattei

Através de Radio Roma Libera

 


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