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26/07/2013
A verdadeira comida


Cartas - A verdadeira comida
26/7/2013 23:02:04

Cartas - A verdadeira comida


A verdadeira comida e a verdadeira bebida

São Paulo, 4 de maio de 2013, dia da beatificação de Nhá Chica.

Caríssimo amigo,

Escrevo esta breve carta para contar-lhe a respeito de uma das coisas mais significativas para mim nestes  últimos anos.

Conforme meu filho Ricardo foi crescendo e atingindo a idade para ser colocado nalguma escolinha maternal, pré-primário ou mesmo uma escola do ensino fundamental, passou a existir em mim um incômodo. Eu me apercebia trabalhando para dar a meu filho uma educação que no fundo o levaria a tornar-se um grande homem, mas não um grande santo. Eu desejaria que ele pudesse aprender mais sobre as coisas de Deus do que a gente lhe oferece em casa, desejaria que ele pudesse ser educado na fé de uma forma mais sólida do que nós já fazíamos, mas eu observava que, na hora de dar-lhe uma educação para que ele viesse a tomar o seu próprio rumo na vida, esta educação seria baseada num currículo concebido por um poder que não compartilha da mesma fé que eu desejava oferecer a meus filhos.

É verdade, nós já lhe ensinávamos bastante sobre a fé. Eu e minha esposa, desde o fim de o início de outubro de 2001, rezamos juntos o terço quotidianamente. Até hoje nossas crianças dormem enquanto rezamos todos juntos o terço. Além disse temos sempre procurado comprar alguns DVDs sobre a vida dos santos preparados para o público infantil. Temos também comprado alguns livros com a mesma perspectiva. Tudo isto lhes agrada, e ensina-lhes muita coisa. Ademais, o nosso exemplo, a nosso amor, o nosso juízo, tudo isto educa. Contudo eu me sentia um verdadeiro traidor ao ocupar-me em dar a meu filho a oportunidade de aprender as disciplinas escolares sem no entanto ocupar-me que ele aprendesse e aprofundasse mais a própria fé.

Enviado por conta de meu trabalho, viemos a morar nos Estados Unidos por um ano e meio. Lá observamos que as crianças fazem a primeira comunhão aos sete anos de idade. Mais tarde, viemos a saber que desde São Pio X, particularmente, esta tem sido a prática recomendada pela Igreja. Se esta é a prática recomendada pela Igreja, esta não é a prática que eu observo em meu país. Por que isto? Por que tanto subdesenvolvimento?

Por que motivo, eu não sei ao certo, mas sei que eu desejava que meu filho tivesse do melhor, o quanto antes. E o melhor, o quanto antes, é a Primeira Comunhão! Eu desejava que ele pudesse fazer a primeira comunhão tão logo possível. Eu desejava que ele tivesse a mesma sorte de São Domingos Sávio. Quem sabe com a mesma idade precoce de Jacinta, uma das três pastorinhas de Fátima, cuja santidade já foi reconhecida pela Igreja, e que fez a primeira comunhão antes mesmo dos sete anos?

Conversei à época com um monge do Mosteiro onde costumo participar da Santa Missa diariamente. Conversei com as monjas de outro Mosteiro com o qual temos um estreito relacionamento. Com todos eles, havia boa vontade, interesse, sabiam que as normas da Igreja permitiam a primeira comunhão, mas eles eram unânimes em dizer que para evitar problemas com o bispo, não poderiam oferecer a catequese naquela idade. Contudo, abriram-me uma brecha, que eu procurasse o padre Valente, grande amigo nosso, porque talvez através do Movimento de que participávamos, isto talvez fosse mais facilmente aceito pelo bispo.

De fato, em abril de 2009, quando Ricardo estava completando seus sete anos, eu conversei com as catequistas da paróquia do padre Valente, e consegui achar apoio em uma delas. A coordenadora levou o caso ao padre, que em princípio, aprovou. Depois a coordenadora da catequese lembrou o padre que isto poderia trazer problemas para a paróquia e para ele. A paróquia já vinha sofrendo problemas pelo fato de adotar uma catequese de um ano somente, e não dois anos.

Diante destes problemas, escrevi uma carta ao padre oferecendo-me para escrever uma carta ao bispo se ele quisesse. Eu também lembrava as recomendações dos papas pela primeira comunhão aos sete anos, mais ou menos, lembrando inclusive que João Paulo II tinha retomado a questão em seu l
ivro Levantai-vos! Vamos! Apesar do apelo do papa dirigido especificamente aos bispos, parece que os bispos ainda não se deram conta de que precisam acordar e levantar!

Graças a Deus, o Ricardo pôde fazer sua primeira comunhão aos sete anos de idade. Sou eternamente grato a padre Valente por ter atendido este meu pedido.

Se com o Ricardo isto foi possível, com a Filomena isto viria a se mostrar ainda mais difícil, já que ela faz aniversário em outubro. Conseguir que ele fosse aceito no curso de catequese aos sete anos de idade não foi fácil. Contudo, para que a Filomena fizesse a primeira comunhão aos sete anos, ela deveria ser aceita no curso com seis! Isto requereria uma luta ainda maior, mas eu não desejava oferecer a ela menos do que ofereci ao Ricardo.

Desta forma, assim que Filomena completou seis anos, eu mesmo me pus a dar a catequese à minha filha. Para tanto, pus-me a usar um método que minha sogra usava em suas catequeses à época em que as crianças faziam a primeira comunhão sem ter ainda aprendido a ler e escrever. Eu me sentia bastante satisfeito com esta tarefa, afinal de contas, a educação dos filhos é umas das maiores responsabilidades que Deus confia aos pais.

Para a minha satisfação, a Filomena sempre se mostrou interessada, desejosa de conhecer mais sobre a fé, e sempre pedia pela catequese.

Por diversas circunstâncias que não vem ao caso detalhar, não nos foi possível oferecer a catequese completa que desejaríamos ter oferecido. Ainda assim, eu e minha esposa oferecemos o essencial que é necessário e um tanto mais que constava no método que empregamos. Em conversa com padre Cassiano, outro padre amigo nosso, minha esposa expôs as circunstâncias a ele, bem como o nosso desejo de oferecer a primeira comunhão a Filomena ainda em 2012. Ele imediatamente concordou em oferecer a nossa filha a oportunidade de fazer a sua primeira comunhão, realizada a 23 de dezembro na paróquia de padre Cassiano.

Naquela ocasião, não houve uma celebração festiva, onde chamamos diversos convidados para celebrar conosco a primeira comunhão de nossa filha. Não havia fotógrafo profissional, igreja decorada de forma especial, ou qualquer outro ornamento. Naquela paróquia de uma pobre periferia  da cidade de São Paulo, realizou-se, contudo, um autêntico banquete: O Banquete do Cordeiro!  Deste banquete tomou parte Filomena. Sua ânsia em consumir este banquete foi tanta, feita de forma tão  rápida, que nem mesmo houve tempo para que eu conseguisse tirar a foto do momento da primeira comunhão. Minha câmara não estava pronta e esta foto não foi tirada. Nem por mim, nem por nenhum dos amigos presentes. Também não foi tirado de mim a memória daquele dia tão especial. Um dia em que, em meio às circunstâncias mais pobres que eu não esperava encontrar, não foi tirada de Filomena a ocasião de alegremente ir ao Encontro com Jesus, que continua a clamar: Deixai vir a mim estas criancinhas! (Mt 19, 14)

Minha foto não foi tirada, mas de mim não foi tirada a memória daquela Eucaristia. De Jesus não foi tirada a satisfação oferecida por nossa filha a seu apelo. Quantas criancinhas porém não vêm sendo tiradas de seus braços justamente quando elas se encontram mais puras para ver a Deus presente em Jesus Eucarístico?

Se eu sou grato a Deus por ter me dado este desejo de dar o melhor a meus filhos, se sou grato de ter-nos dado a ocasião de aprofundar meus conhecimentos a respeito do quão irregular é a situação em que se encontra a Igreja que tira dos braços de Jesus as criancinhas, tal como pretendiam fazer os discípulos na Palestina de dois mil anos atrás, desejo expressar minha gratidão ajudando, quem sabe, a reparar uma parte deste dano.

Se aos três anos de idade tantos pais se põe a colocar seus filhos nalguma escolinha de natação, na esperança de educar seus pupilos a enfrentar a água sem se afogar, a discernir quando é o momento certo de respirar, quando é o momento certo de bater os braços, as pernas, coordenando os movimentos do corpo de forma a alcançar a meta que se en
contra do outro lado de uma piscina, por que razão esta mesma criança não pode ser educada a receber dignamente o Alimento que a ajudará a enfrentar as correntezas da vida até ser finalmente acalentado nos braços de Deus?

Que pai não desejaria o melhor para o seu filho? Que pai não desejaria a ele o Pão do Céu, capaz de saciar toda a fome que o homem carrega em seu coração? Que pai não desejaria dar àquele que nasceu de seu mesmo sangue, o Sangue por excelência, o Sangue do Divino Salvador que morreu por amor de si e de seu tão amado filho? Qual o pai que não desejaria confiar seu filho amado, o quanto antes, ao mais excelso Mestre?

É a este pai, a esta mãe, primeiramente que eu escrevo esta carta. É ao pai e à mãe que desejam ser o melhor dos pais e a melhor das mães que esta carta carta visa primeiramente atingir. Primeiramente é necessário que nos deixemos ser atingidos por aquele apelo de Jesus: Deixai que venham a mim as criancinhas!

Infelizmente, são poucos os pais que têm esta consciência toda, de forma clara. Infelizmente são poucas as crianças que encontram no exemplo de seus pais o desejo em ir correndo para os braços de Jesus. Se em grande parte os próprios pais são responsáveis por isto, em grande parte a responsabilidade cabe àqueles que deveriam ter dado a estes pais uma autêntica educação e não o fizeram. Isto inclui, deve ser dito, a própria Igreja.

A carta que se segue foi escrita a padre Cassiano em ocasião de agradecer-lhe por ter propiciado à Filomena o Alimento por excelência, o quanto demora. Ela reflete um juízo profundo sobre a situação irregular em que a própria Igreja se encontra, ao ignorar o apelo de Jesus, ao ignorar o juízo de São Pio X que partiu deste apelo de Jesus na carta Quam Singularis, de 1910, que tratava mais diretamente desta questão da Primeira Comunhão das crianças. Esta carta apresenta um estudo profundo sobre o tema, e traça recomendações claras à Igreja a respeito da Primeira Comunhão das crianças baseadas no Magistério da Igreja, que é também de uma clareza aguda sobre o tema. Contudo, a Igreja hoje em meu país, e não somente em meu país, não somente ignora as recomendações dos papas, como também, pior ainda, ignora o conteúdo da carta de São Pio X. Uma Igreja opta por permanecer nesta ignorância, como veremos, não pode ser chamada de Católica. Esta Igreja precisa ser acordada. A esta Igreja o papa mesmo diz, e nós devemos repetir: Levantai-vos! Vamos! Está nas mãos dos pais que desejam o melhor para seus filhos, acordar a Igreja, e movê-las junto com suas criancinhas ao encontro dos braços mesmos de Jesus!

Recomendo a leitura atenta da carta que escrevi a padre Cassiano: Meu único presente de Natal. Recomendo também a própria leitura da carta Quam Singularis de São Pio X.

***

Assim, tendo lido a carta escrita a padre Cassiano, recomendo aos pais interessados em oferecer o melhor a seus filhos que se indaguem: tenho dado a meus filhos o melhor exemplo? Tenho dado a eles o desejo do melhor Alimento? Àqueles pais interessados em oferecer o melhor a seus filhos, mesmo que não tenham sido o melhor dos exemplos, mas também a qualquer homem de boa vontade que deseje trabalhar para ajudar a reparar a situação irregular a que a Igreja se permitiu ser conduzida, ofereço humildemente algumas sugestões.

Pergunte-se ao pároco, ao bispo a respeito de a partir de quando um fiel deve satisfazer o segundo e o terceiro mandamentos da Igreja, que determinam a obrigatoriedade da Confissão e da Comunhão anual, por ocasião da Páscoa.

Pergunte-se também a respeito de que iniciativas eles promovem em sua paróquia ou sua diocese para que seus fiéis possam adequadamente cumprir estes mandamentos desde o momento descrito acima.

Depois de terem respondido a estas questões, se as respostas forem de acordo com o que prescrevem os Concílios Ecumênicos citados na carta, ótimo. Você se encontra numa paróqui e ou diocese que faz parte da comunhão católica. Se contudo, a resposta for distinta do que determinam os concílios, a Caridade cristã exige
que se alerte o pároco ou bispo a respeito da situação irregular em que se encontra, e que é necessário que ele se corrija se quiser fazer parte da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Naturalmente que uma tal correção deve ser feita com humildade e fortaleza. Convém, neste caso, dar um prazo para que a autoridade em questão reflita melhor sobre o assunto. Terminado este prazo, convém que se publique a respeito desta irregularidade, caso a autoridade tenha optado pela teimosia, para que o Povo de Deus não seja vítima de maus pastores que se põem a excluir de suas ovelhas mais inocentes o alimento mais vital que existe: Quem não comer da minha Carne e não beber do meu Sangue, não terá a Vida Eterna!  A estes maus pastores o Senhor mesmo dirá no dia do Juízo: eu tive fome, e tu não me deste de comer; eu tive sêde, e tu não me deste de beber!

Uma cópia permanente desta carta, da carta Meu único presente de Natal, e do decreto Quam singularis estarão à disposição em:

http://www.ime.usp.br/~alair/FilomenaAndTheKing

Agradeço imensamente. Agradeço imensamente pela divulgação.

Alair Pereira do lago




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