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Página dedicada aos que amam as almas do Purgatório.
FAMÍLIA, FUNDAMENTO DA SALVAÇÃO
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18/05/2018
Um amor de padre
Ou, o amor de um padre, que ao falecer deveria ficar no Purgatório até o final dos tempos!
 

Um amor de Padre

Em nossas andanças por aí, em Cenáculos, por tantos lugares, muitas vezes encontramo-nos com sacerdotes por nós desconhecidos e nos alegramos por vê-los nos acompanhando, procurando sempre conversar com eles: saber coisas, pedir orientações, confessar.

A presença do Padre sempre nos trás alegrias: contagia o nosso coração!

E aconteceu um encontro que jamais imaginaria: Um amigo de infância que há 60 anos não o via mais, já que em 1968 ele saiu de nossa cidade para estudar em lugar distante, a fim de seguir o caminho sacerdotal: foi para o seminário.

- Boa tarde, Cláudio! Como vais?

- Boa tarde! Sua Benção, Padre.

- Quanto tempo, não?

-É? Não sei. Quem é o senhor?

- Teu amigo, o Valdo, de Brusque...

- O senhor? O senhor é Padre? Realizou o seu sonho?

- E estou aqui, rezando contigo.

- Quanto tempo! Bem, se o senhor está aqui é porque conhece o nosso trabalho. Então me conte sobre o seu, a sua história...

E narrou assim.

Começou lá atrás, na nossa escola: Eu gostava da Jaque e ela gostava de mim, mas com 10 anos de idade e ela com 09, o namoro não podia existir. Mas eu a admirava, observava cada gesto seu, cada movimento, até dentro da sala de aula: Era a minha deusa! Em um dia de prova oral, eu fui chamado antes e após a prova fui para o pátio. Era o último exame do ano: Exame final. Logo ela saiu da sala e pela primeira vez se aproximou de mim! Tudo em mim gelou e meu coração parecia querer sair do peito. Ela tocou suas mãos em mim, e com seus lábios junto ao meu ouvido disse: Você tirou nota 90! Eu vi o Diretor anotar no livro!

Naquele momento a nota não me interessou: o que me importou era tê-la ali junto a mim e ter seus lábios sobre mim...

- Este tempo precisa parar, eu disse de mim para mim.

Mas não parou e ela foi juntar-se às amiguinhas que em uníssono cantaram: Ela tem um namorado! Ela tem um namorado! Viva a Jaque! Viva a Jaque! Viva!

Meu coração pulava: queria correr pelo pátio, voar...

Mas o encanto acabou! Eu tinha só 10 e ela só 9 anos!

Nunca havíamos conversado. Eu era muito tímido, mas eu sabia que ela gostava de mim: algumas vezes ela vinha em sua bicicleta visitar suas amiguinhas bem perto da minha casa e eu percebia que ela procurava me ver, mas eu apenas a observava embora uma vontade forte me sugeria ir ao encontro dela, conversar e, que sabe, sentir suas mãos sobre mim e seus lábios tão pertos... Mas minha timidez não permitia.

Um dia fui acometido de uma forte gripe e o médico indicou injeções.

- O “Seu” João aplica injeções, disse a mãe: Vai lá e ele vai atender.

“Seu” João era o pai da Jaque! Eu teria de ir na casa dele! Fui! E quanto mais me aproximava da casa mais meu coração enlouquecia! Mas ela não estava e aquela injeção doeu o dia e a noite inteira! No dia seguinte fui de novo e falava baixinho: Tomara que ela esteja lá! Vou vê-la! Vou vê-la! E ela estava! Só ela! Mais ninguém!

- Entra, Valdo! Meus pais não estão, mas não devem demorar. Entra!

Meu coração girava. Meu corpo girava! E eu não sabia o que fazer.

- Entra...

Aquela voz! Aquele sorriso! Não foi possível ir embora!

Conversamos sobre não sei o que, até que me convidou a subir no seu quarto, no andar de cima.

Eu tinha dez e ela nove: o que poderia acontecer de errado? Nada! Naquela época, com essa idade, as coisas adultas eram desconhecidas!

Conversamos sobre as aulas, sobre a escola, sentados sobre sua cama! Seus pais chegaram fazendo interromper aquele encontro mágico!

A injeção doeu muito mais, e isto por muitos dias, pois nunca mais tivemos este encontro: Fui para o seminário e procurei não mais pensar nela, embora isso fosse quase impossível.

Só poderia voltar para casa nas férias do final do ano e eu contava os dias, para que o tempo andasse mais rápido... Mas não andava: Já no meio do ano, meus pais mudaram de cidade e então tive vontade de brigar com eles. Mas eles estavam longe. E nas férias não pude vê-la! Dezembro, Janeiro... Em Fevereiro, no dia 02 voltei ao seminário sem ter noticias dela, e não teria mais, pois não se podia receber ou enviar cartas. No próximo período de férias implorei à minha mãe: - Deixa eu ir a Brusque, rever meus amigos. Minha mãe era uma Santa e me permitiu ir. Ao invés de procurar meus amigos, fui à casa de Jaque, até o portão, mas recuei... Eu era tímido demais!

Meu coração brigou comigo e quase não pude perceber quando, na estrada já longe da casa dela, escutei sua vos, suave , inconfundível:

- Oi, Valdo! Tudo bem?

Agora estava tudo bem! Mas não tive coragem de dizer-lhe... Na verdade, eu me tornei mudo!

- Você vai voltar ao seminário?

- É! Acho que vou!

- Então, boa sorte!

E se foi! Agora eu queria falar, dizer-lhe do quanto ela me fazia falta... Mas eu não sabia voar!

Depois do terceiro ano de seminário, do quarto, do quinto, e só depois do quinto, é que pude receber férias. Mas eu já não tinha certeza se queria vê-la. Minha cabeça não me dava a resposta correta: Sim! Não! Voltar ao seminário: Sim! Não!

E num desses dias de férias em Brusque, na porta da Igreja de meu bairro, fui como que, barrado por um toque suave de mãos de Anjos!

- Oi, Valdo!

- Jaque! Você?

- Quanto tempo! Você não teve mais férias?

- Quantas saudades! Mas só agora pude vir!

Tive vontade de dizer: Para te ver! Mas não disse e me limitei a perguntar:

- Você sempre vem a Missa aqui?

- Não! Eu participo de outra Paróquia, mas hoje eu soube que você estaria aqui!

- Você soube?

- É! Eu ando sempre te procurando... E ela entrou na Igreja.

Para mim, esta foi uma séria declaração de amor.

Ela estava linda! Agora, com dezessete anos era ainda mais linda!

- Eu não posso perdê-la! Não a deixarei mais!

Ao terminar a Santa Missa, fui abordado por meus parentes que me conduziram às suas casas. Ela ficou lá: parada! Me olhando...

Meu coração gritava: - Isto não poder ser um adeus! Preciso vê-la sempre! Mas passaram-se mais cinco anos, sem que houvesse novo encontro!

Eu a amava! Mas amava o caminho sacerdotal!

- Quero ser padre, ora eu dizia: quero me casar com Jaque, ora eu dizia!

E chegou o dia da Ordenação e isto aconteceu em Brusque, na Igreja do nosso último encontro!

E ela estava lá: seu sorriso me extasiava, meu corpo tremia, a ponto de quase não poder manter-me de pé!

- Ainda há tempo, eu resmungava... Mas as horas passavam e o tempo acabou!

- Tu es sacerdos in aeternum!

No abraço, choramos muito, mas não houve palavras a não ser:

- Vai, Valdo! Segue tua história! Seja feliz!

Fui para outros estados, outras paragens, outros países, e nunca mais a vi!

Soube por carta de meus pais, que Jaque se casara e fora morar em outra cidade, mas não fora feliz com o casamento!

Mas eu não fiz nada! A não ser chorar!

Me sentia bem como sacerdote e fiz muitas obras bonitas, fui homenageado e querido por muita gente. Cumpri minha Missão a contento. Deus, com certeza está contente comigo!

Foi a última vez que vi o Valdo.

E no dia 04 de Julho, no rio Grande do Sul, no Cemitério Linha Andreas, de Vera Cruz, recebi esta mensagem:

 

Cemitério Linha Andreas

Mas, por causa deste vosso gesto, vai agora ao Céu este padre que faleceu às 14,00 horas, e que deveria permanecer no Purgatório até o final dos tempos. Ele “esquecera-se” de ser padre e lembrou-se apenas quando no seu leito de morte. Por vossas orações, foi salvo no último momento e agora será vosso intercessor para sempre. Amém!

“Maria, Mãe do Universo!”

- Mas, por que, Mãe? Ele não traiu o seu sacerdócio...

- Traiu Jacque que o esperou por 20 anos, e assim teve perdida boa parte de sua vida! Foi indeciso, fraco. Trouxe sofrimentos a outros... Desde o início de sua história teve tempo de dizer a Jaque de sua decisão de ser padre, mas deixou-a sempre na esperança, na expectativa. Sua indecisão fez Jaque sofrer e perder tempo, por isso Deus o sentenciou a um Purgatório longo. Agora vai ao Céu, por causa de vocês.

Amém?

 

 

 
 
 

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