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FAMÍLIA, FUNDAMENTO DA SALVAÇÃO
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04/08/2005
Cordeiro de Deus (09 B)
 
Revelações - 11 Cordeiro de Deus (09 B)
Revelações - 11 Cordeiro de Deus (09 B)

CORDEIRO DE Deus (PARTE 9 B)
 
Terceira queda de Jesus sob a cruz. Simão de Cirene.
 
O séqüito continuou nessa rua larga, até chegar à porta de um antigo muro da cidade interior. Diante dessa porta há uma praça, em que desembocam três ruas. Ali Jesus tinha de passar sobre outra pedra grande, mas tropeçou e caiu. A cruz tombou para o lado e Jesus, apoiando-se sobre a pedra, caiu por terra e tão enfraquecido estava, que não pôde levantar-se mais. Passaram grupos de gente bem vestida, que iam ao Templo e vendo-O, exclamaram: “Coitado, o pobre homem morre!”
Deu-se um tumulto; não conseguiram mais levantar Jesus e os fariseus que conduziam o cortejo, disseram aos soldados: “Não chegamos lá com Ele vivo; deveis procurar um homem que Lhe ajude a levar a cruz”. Vinha justamente descendo pela rua do meio Simão de Cirene, um pagão, acompanhado pelos três filhinhos; transportava um feixe de ramos secos debaixo do braço. Era jardineiro e vinha dos jardins situados perto do muro oriental da cidade, onde trabalhava. Todos os anos vinha, com mulher e filhos, para a festa em Jerusalém, como muitos outros da mesma profissão, para podar as sebes.
Não pôde sair do caminho, porque a multidão se apinhava na rua. Os soldados, que pela roupa viam que era pagão e pobre jardineiro, apoderaram-se dele e, levando-o para onde estava Jesus, mandaram-lhe que ajudasse o Galileu a transportar a cruz. Simão resistiu e mostrou muita repugnância, mas obrigaram-no à força.
Os filhinhos choravam alto e algumas mulheres que conheciam o homem, levaram-nos consigo. Simão sentiu muito nojo e repugnância, vendo Jesus tão miserável e desfigurado e com a roupa tão suja e cheia de imundície. Mas Jesus, com os olhos cheios de lágrimas, olhou para Simão com olhar tão desamparado, que causava dó.
Simão foi obrigado a ajudá-Lo a levantar-se; os carrascos amarraram o braço da cruz mais para trás e penduraram-no, com uma volta da corda, sobre o ombro de Simão, que andava muito perto, atrás de Jesus, que deste modo não tinha mais de carregar tanto peso. Finalmente o lúgubre séqüito se pôs em movimento.
Simão era homem robusto, de 40 anos. Andava com a cabeça descoberta; vestia uma túnica curta, apertada e na cintura uma faixa de pano roto; as sandálias, atadas aos pés e pernas com correias, terminavam na frente em bico agudo. Os filhos vestiam túnicas listadas de várias cores; dois já eram quase moços, chamavam-se Rufo e Alexandre e juntaram-se mais tarde aos discípulos. O terceiro era ainda pequeno; vi-o ainda menino, em companhia de Santo Estevão. Simão ainda não tinha seguido muito tempo Jesus, carregando o patíbulo e já se sentia profundamente comovido.
 
Verônica e o Sudário
 
A rua em que se movia nessa hora o séqüito, era longa, com uma leve curva para a esquerda e nela desembocavam várias ruas laterais. De todos os lados vinha gente bem vestida, que se dirigia ao Templo; ao ver o séqüito, uns se afastavam, com o receio farisaico de se contaminarem, outros manifestavam certa compaixão.
Havia cerca de duzentos passos que Simão ajudava Jesus a carregar a cruz, quando uma mulher de figura alta e imponente, segurando uma menina pela mão, saiu de uma casa bonita, ao lado esquerdo da rua e que tinha um átrio cercado de muros e de um belo gradil brilhante, onde se penetrava por um terraço, com escadaria. Ela correu, com a menina, ao encontro do cortejo. Era Seráfia, mulher de Sirac, membro do Conselho do Templo, a qual, pela boa ação praticada nesse dia, recebeu o nome de Verônica (de “vera icon”: verdadeira imagem).
Seráfia tinha preparado em casa um delicioso vinho aromático, com o piedoso desejo de oferecê-lo como refresco a Jesus, no caminho doloroso para o suplício. Já tinha ido uma vez ao encontro do séqüito, em expectativa dolorosa; vi-a velada, segurando pela mão uma mocinha que adotara, passar ao lado
do séqüito, quando Jesus se encontrou com a Santíssima Virgem. Mas, com o tumulto, não achou ocasião de aproximar-se e voltou às pressas para casa, para lá esperar o Senhor.
Saiu, pois, velada de casa para a rua; um pano pendia-lhe do ombro; a menina, que podia ter nove anos, estava-lhe ao lado, ocultando sob o manto o cântaro com o vinho, quando o séqüito se aproximou. Os que o precediam, tentaram em vão retê-la; ela estava fora de si de amor e compaixão. Com a menina, que se lhe segurava, pegando-lhe o vestido, atravessou a gentalha, que ia dos lados e por entre soldados e carrascos, avançou para a frente de Jesus e, caindo de joelhos, levantou para Ele o pano, estendido de um lado, suplicando: “Permiti-me enxugar o rosto de meu Senhor”. Jesus tomou o pano com a mão esquerda e apertou-o, com a palma da mão de encontro ao rosto ensangüentado; movendo depois a mão esquerda, com o pano, para junto da mão direita, que segurava a cruz, apertou-o entre as duas mãos e restituiu-lho, agradecendo; ela o beijou, escondendo-o sobre o coração, debaixo do manto e levantou-se.
 Então a menina ofereceu timidamente o cântaro com o vinho; mas os soldados e carrascos, praguejando, impediram-na de confortar Jesus. A audácia e rapidez dessa ação provocou um ajuntamento curioso do povo e causou assim uma pausa de dois minutos apenas na marcha, o que permitiu a Seráfia oferecer o sudário a Jesus. Os fariseus a cavalo e os carrascos irritaram-se com essa demora e mais ainda com a veneração pública manifestada ao Senhor e começaram a maltratá-Lo e empurrá-Lo. Verônica, porém, fugiu com a menina para dentro de casa.
Apenas entrara no aposento, estendeu o sudário sobre a mesa e caiu por terra desmaiada; a menina, com o cântaro de vinho, ajoelhou-se-lhe ao lado, chorando. Assim as encontrou um amigo da casa, que entrara para a visitar e a viu como morta, sem sentidos, ao lado do sudário estendido, no qual o rosto ensangüentado do Senhor estava impresso de um modo maravilhosamente distinto, mas também horrível. Muito assustado, fê-la voltar a si e mostrou-lhe o rosto do Senhor. Cheia de dor, mas também de consolação, Seráfia ajoelhou-se diante do sudário, exclamando: “Agora vou abandonar tudo, o Senhor deu-me uma lembrança”.
Esse sudário era de lã fina, cerca de três vezes mais longo do que largo. Costumava-se usar em volta do pescoço; às vezes usavam ainda outro em torno dos ombros. Era uso ir ao encontro de pessoas aflitas, cansadas, tristes ou doentes e enxugar-lhes o rosto; era sinal de luto e compaixão; nas regiões quentes também usavam dá-lo de presente. Verônica guardava esse sudário sempre à cabeceira da cama. Depois de sua morte veio ter, por intermédio das santas mulheres, às mãos da Santíssima Mãe de Deus e dos Apóstolos e depois à Igreja.
 
A quarta e quinta queda de Jesus sob a cruz. As compassivas filhas de Jerusalém
 
O séqüito estava ainda à boa distância da porta; a rua descia um pouco até lá. A porta era uma construção extensa e fortificada; passava-se primeiro por uma arcada abobadada, depois sobre uma ponte e finalmente por outra arcada. A porta ficava em direção sudoeste; ao sair dela, se via o muro da cidade estender-se para o sul, a uma distância como, por exemplo, da minha casa até a Matriz, (cerca de dois minutos de caminho); depois virava, à uma boa distância, para oeste e voltava novamente à direção do sul, fazendo a volta do Monte Sião. A direita se estendia o muro para o norte, até à porta do Angulo, dirigindo-se depois ao longo da parte setentrional de Jerusalém, para leste.
Quando o séqüito se aproximou da porta, impeliam-nO os carrascos com mais violência. Justamente diante da porta, havia no caminho desigual e arruinado uma grande poça: os carrascos arrastavam Jesus para frente, apertavam-se uns aos outros; Simão Cireneu procurou passar ao lado da poça, pelo caminho mais cômodo; com isso deslocou-se a cruz e Jesus caiu pela quarta vez sob a cruz e tão duramente, no meio do lodaçal, que Simão quase não pôde segurar a cruz, Jesus exclamou em voz fina, fraca e contudo alt
o: “Ai de ti! Ai de ti! Jerusalém! Quanto te tenho amado! Como uma galinha, que esconde os pintinhos sob as asas, assim queria reunir os teus filhos e tu me arrastas tão cruelmente para fora das tuas portas”.
 O Senhor disse essas palavras com profunda tristeza, mas os fariseus, virando-se para Ele, insultaram-nO, dizendo: “Este perturbador do sossego público ainda não acabou; ainda tem a língua solta?” e outras zombarias semelhantes. Espancaram e empurraram Jesus, arrastando-O para fora do lodaçal, para o levantar. Simão Cireneu ficou tão indignado com as crueldades dos carrascos, que gritou: “Se não acabardes com essa infâmia, jogarei a cruz no chão e não a carregarei mais, mesmo que me mateis também”. (...)
Jesus não caiu ali inteiramente por terra; ia caindo como quem desmaia, de modo que Simão pôs a extremidade da cruz no chão e, aproximando-se de Jesus, segurou-O. O Senhor encostou-se em Simão. Essa foi a quinta queda do Salvador sob a cruz. As mulheres e moças, ao verem Jesus tão desfigurado e ensangüentado, começaram a chorar e lamentar alto, oferecendo-lhe os sudários, segundo o costume entre os judeus, para que enxugasse o rosto.
Jesus virou-se-lhes e disse: “Filhas de Jerusalém, (isso significa também: filhas de Jerusalém e cidades vizinhas), não choreis por mim, mas chorai por vós e vossos filhos; porque sabei que virá tempo em que se dirá: “Ditosas as que são estéreis e ditosos os ventres que não geraram e ditosos os peitos que não deram de mamar”. - Então começarão os homens a dizer aos montes: “Caí sobre nós!” e aos outeiros: “Cobri-nos”. “Porque, se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?”. Ainda lhes disse outras belas palavras, as quais, porém, esqueci; entre outras disse que aquelas lágrimas lhes seriam recompensadas, que doravante deviam seguir outros caminhos, etc.
Houve ali uma pausa, pois o séqüito parou por algum tempo. Aqueles que levavam os instrumentos do suplício, continuaram o caminho para o Calvário; seguiam-se depois cem soldados do destacamento de Pilatos, o qual tinha acompanhado o cortejo até ali, mas chegado à porta da cidade, voltara para o palácio.
 
Jesus no Monte Gólgota. Sexta e sétima queda de Jesus e seu encarceramento
 
O séqüito pôs-se novamente em caminho. Jesus, curvado sob a cruz, impelido a empurrões e golpes, arrastado pelas cordas, subiu penosamente o áspero caminho que segue para o norte, entre o monte Calvário e os muros da cidade; depois, no alto, se volta o caminho tortuoso outra vez para o sul. Lá caiu Jesus, tão enfraquecido, pela sexta vez; foi uma queda dura e a cruz, ao cair, ainda mais o feriu. Os carrascos, porém, espancaram e impeliram-nO com mais brutalidade do que antes, até que Jesus chegou ao cume, no penedo do Gólgota e ali caiu novamente com a cruz por terra, pela sétima vez.
Simão Cireneu, também maltratado e cansado, estava cheio de indignação e compaixão; quis ajudar Jesus a levantar-se, mas os carrascos, aos empurrões e insultos, fizeram-no voltar pelo caminho, morro abaixo; pouco depois se associou aos discípulos do Mestre Divino. Também os outros que trouxeram os instrumentos ou seguiram o cortejo e de que os carrascos não precisavam mais, foram enxotados do cume. Os fariseus a cavalo subiram o monte Calvário por outros caminhos, mais cômodos, do lado oeste. Do cume se avistam justamente os muros da cidade.
A face superior, o lugar do suplício, tem a forma circular e caberia bem no largo diante da nossa Matriz; é do tamanho de um bom picadeiro e cercado de um aterro baixo, cortado por cinco caminhos. Essa disposição de cinco caminhos encontra-se em quase todos os lugares do país, em lugares de banhos públicos ou de batismo, como na piscina Betesda; muitas cidades também têm cinco portas. Essa disposição acha-se em todas as construções dos tempos antigos e também em mais modernos e assim foram feitas em atenção às antigas tradições. Como em todas as coisas da Terra Santa, há também nisso um profundo sentido profético, cumprido nesse dia, em que se abriram os cinco caminhos de toda a salvação
, as cinco sagradas Chagas de Jesus.(...)
Eram cerca de onze horas e três quartos, quando Jesus, arrastado com a cruz para o lugar do suplício, caiu por terra e Simão foi expulso de lá. Os carrascos levantaram o Salvador aos arrancos das cordas e desligaram os madeiros da cruz, jogando-os no chão, um em cima do outro. Ai! que aspecto terrível apresentava Jesus, em pé no lugar do suplício, abatido, triste, coberto de feridas, ensangüentado, pálido.
Os carrascos deitaram-nO brutalmente por terra, dizendo em tom de mofa: “Ó rei dos judeus, devemos tomar medida de teu trono?”. Mas Jesus deitou-se de livre vontade sobre a cruz e se a fraqueza lhO tivesse permitido, os carrascos não teriam tido necessidade de jogá-Lo por terra. Estenderam-nO sobre a cruz e marcaram nesta os lugares das mãos e dos pés, enquanto os fariseus em redor riam e insultavam o Divino Salvador.
Levantando-O novamente, conduziram-nO amarrado uns setenta passos ao norte, descendo a encosta do monte Calvário, a uma fossa cavada na rocha, que parecia uma cisterna ou adega; levantando o alçapão, empurraram-nO para dentro tão brutalmente, que se não fosse por auxílio divino, teria chegado ao fundo duro da rocha com os joelhos esmagados. Ouvi-Lhe os gemidos altos e agudos. Fecharam o alçapão e deixaram uma guarda. Segui-O nesses setenta passos; parece-me lembrar ainda de uma revelação sobrenatural de que os Anjos o socorreram, para que não esmagasse os joelhos; mas a pobre Vítima gemia e chorava de modo que cortava o coração. A rocha amoleceu, ao contato dos joelhos sagrados do Redentor.
Os carrascos começaram então os preparativos. Havia no centro do largo do suplício uma elevação circular, de talvez dois pés de altura, para a qual se tinham de subir alguns degraus: era o ponto mais alto do penedo do Calvário. Nesse cume estavam cavando a cinzel os buracos nos quais as três cruzes deviam ser plantadas; já tinham tomado medida para isso na extremidade inferior das cruzes. Colocaram os troncos das cruzes dos ladrões à direita e à esquerda, sobre essa elevação; esses lenhos eram toscamente aparados e mais baixos do que a cruz de Jesus; em cima haviam sido cortados obliquamente. Os madeiros transversais, aos quais os ladrões ainda estavam amarrados, foram depois ajustados um pouco abaixo da extremidade superior dos troncos.
Os carrascos colocaram então a cruz de Nosso Senhor no lugar onde O queriam pregar, de modo que a pudessem comodamente levantar e fazer entrar na escavação. Encaixaram os dois braços da cruz no tronco, pregaram a peça de madeira para os pés, abriram com uma verruma os furos para os cravos e para o prego do título, fincaram a martelo as cunhas sob os braços da cruz e fizeram cá e lá algumas cavidades no tronco da cruz, para dar espaço para a coroa de espinhos e as costas, de modo que o corpo ficasse mais suportado pelos pés do que pendurado pelas mãos, que podiam rasgar-se com o peso do corpo e para que Jesus sofresse maior martírio. Ainda fincaram em cima por um madeiro transversal, para servir de apoio às cordas, com as quais queriam puxar e elevar a cruz e fizeram ainda outros preparativos semelhantes.
 
Maria e as amigas vão ao Calvário
 
Depois do doloroso encontro da SS. Virgem com o Divino Filho, carregando a cruz, quando Maria caiu sem sentidos sobre a pedra angular, Joana Chusa, Suzana e Salomé de Jerusalém, com auxílio de João e do sobrinho de José de Arimatéia, conduziram-na para dentro da casa, impelidos pelos soldados e o portão foi fechado, separando-a do Filho bem-amado, carregado do peso da cruz e cruelmente maltratado.
O amor e o ardente desejo de estar com o Filho, de sofrer tudo com Ele e de não O abandonar até o fim, davam-lhe uma força sobrenatural. As companheiras foram com ela à casa de Lázaro, na proximidade da porta Angular, onde estavam reunidas as outras santas mulheres, com Madalena e Marta, chorando e lamentando-se; com elas estavam também algumas crianças. De lá saíram em número de 17, seguindo o caminho doloroso de Jesus.
Vi-as todas, sérias e decididas; não se i
mportavam com os insultos da gentalha, mas impunham respeito pela sua tristeza; passaram pelo fórum, a cabeça coberta pelos véus; no ponto onde Jesus tomara ao ombro a cruz, beijaram a terra; depois seguiram todo o caminho da Paixão de Jesus, venerando todos os lugares onde Ele mais sofrera. Maria e as que eram mais inspiradas, procuravam seguir as pegadas de Jesus e a SS. Virgem, sentindo e vendo-lhes tudo na alma, guiava-as, onde deviam parar e quando deviam prosseguir nessa via sacra. Todos esses lugares se lhe imprimiram vivamente na alma; ela contava até os passos e mostrava às companheiras os santos lugares.
Desse modo a primeira e mais tocante devoção da Igreja foi escrita no coração amoroso de Maria, Mãe de Deus; escrita pela espada profetizada por Simeão; os santos lábios da Virgem transmitiram-na aos companheiros do sofrimento e por esses a nós. Esta é a santa tradição vinda de Deus ao coração da Mãe Santíssima e do coração da Mãe aos corações dos filhos; assim continua sempre a tradição na Igreja.
Quando se vêm as coisas como as vejo, parece este modo de transmissão mais vivo e mais santo. Os judeus de todos os tempos sempre veneraram os lugares consagrados por uma ação santa ou por um acontecimento de saudosa memória. Eles não esquecem um lugar onde se deu uma coisa sobrenatural: marcam-no com monumento de pedras e vão em peregrinação, para rezar. Assim também nasceu a devoção da Via Sacra, não por uma intenção premeditada, mas da natureza dos homens e das intenções de Deus para com seu povo, do fiel amor de uma mãe, e, por assim dizer, sob os pés de Jesus, que foi o primeiro que a trilhou.
Chegou então esse piedoso grupo à casa de Verônica, onde entraram, porque Pilatos com os cavaleiros e os duzentos soldados, voltando da porta da cidade, lhes vinham ao encontro. Ali Maria e os companheiros viram o sudário, com a imagem do rosto de Jesus e entre lágrimas e suspiros, exaltaram a misericórdia de Jesus para com sua fiel amiga. Levaram o cântaro com o vinho aromático, com que Verônica não conseguira confortar Jesus e dirigiram-se todos, com Verônica, à porta do Gólgota. No caminho se lhes juntaram ainda muitas pessoas bem intencionadas e outras comovidas pelos acontecimentos, entre as quais também certo número de homens, formando um cortejo que, pela ordem e seriedade com que passou pelas ruas, me fez uma singular impressão. Esse cortejo era quase maior do que aquele que conduziu a Jesus, não contando o povo que o acompanhou.
As angústias e dores aflitivas de Maria nesse caminho, ao ver o lugar do suplício, com as cruzes no alto, não se podem exprimir em palavras; a alma amantíssima da Virgem sentia os sofrimentos de Jesus e era ainda torturada pelo sentimento de não poder seguí-Lo na morte. Madalena, toda transtornada e como embriagada de dor, andava cambaleando, como que arremessada de angústia em angústia; passava do silêncio às lamentações, do estupor ao desespero, das lamentações às ameaças. Os companheiros eram obrigados a sustê-la, a protegê-la, a exortá-la e a escondê-la da vista dos curiosos.
Subiram o monte Calvário pelo lado mais suave, ao oeste e aproximaram-se em três grupos do aterro circular do cume, a certa distância, um atrás do outro. A Mãe de Jesus, a sobrinha desta, Maria de Cleofas, Salomé e João avançaram até o lugar do suplício; Marta, Maria Helí, Verônica, Joana Chusa, Suzana e Maria, mãe de Marcos, ficaram um pouco afastadas, rodeando Maria Madalena, que não podia conter a dor. Um pouco mais atrás estavam ainda sete pessoas e entre os três grupos havia gente boa, que mantinha uma certa comunicação entre eles.
Os fariseus a cavalo estavam em diversos lugares em redor do local do suplício, enquanto os soldados romanos ocupavam as cinco entradas.
Que espetáculo doloroso para Maria: o lugar do suplício, o cume com as cruzes, a terrível cruz do Filho adorado e diante dela, no chão, os martelos, as cordas, os horrendos pregos e os repelentes carrascos, meio nus, quase embriagados, fazendo o horroroso trabalho entre imprecações. Os troncos das cruzes dos ladrões já esta
vam arvorados, munidos de paus encaixados para subir. A ausência de Jesus ainda prolongava o martírio da Mãe Santíssima; ela sabia que ainda estava vivo; desejava vê-lo, tremia ao pensar em que estado O veria; ia vê-Lo em indizíveis tormentos.
     Desde a madrugada até às dez horas, quando foi pronunciada a sentença, caíra várias vezes chuva de pedra; durante o caminho de Jesus ao Calvário clareou o céu e brilhava o sol; mas pelas doze horas começou uma neblina avermelhada a velar o sol.
 
      Temos assim, chegado ao topo do Calvário, junto com Jesus. Quando contemplamos as estações da Via Sacra, falamos em apenas três quedas, quando aqui as revelações falam em sete quedas. Devemos crer que estas três quedas contempladas foram as principais, pois houve inúmeras, uma vez que o peso da Cruz era enorme e a fraqueza imensa, pelo cansaço, pela perda de sangue, pelas dores pelos safanões que davam na corda que Ele tinha amarrada ao pescoço. Faziam tudo isso para O atormentar ao extremo.
 
     De fato, é impossível imaginar que os homens pudessem ser tão maus, tão covardes para bater num homem quase morto, amarrado e despedaçado por golpes, afrontas e ultrajes. Ana Catarina chega a dizer que até as pedras se comoveriam, entretanto os homens não foram capazes disso. Tanto ódio, só se pode imputar à pessoas completamente dominadas pelos demônios, que descarregavam em Jesus toda a sua fúria infernal.
 
     Devemos esclarecer um fato. Lúcifer e sua camarilha, até aqui não tinham a certeza de 100% de que Jesus era de fato o Messias. A Sabedoria Divina só lhes permitiu saber disso, no momento em que Jesus deu o último suspiro. Ora, o inferno não queria jamais que se completasse a redenção. Eles não queriam jamais que os homens fossem libertados. E aconteceu que quando Judas traiu a Jesus, eles viram uma oportunidade de sustar o processo, pois estavam desconfiados que Jesus era o Messias. Assim, o próprio Lúcifer tentou tirar da cabeça de Judas a idéia de trair o mestre. Entretanto, para ódio seu – e para surpresa dele e de todo o inferno – ele descobriu que era incapaz de fazer o bem, ou seja, fazer alguém deixar de pecar. Isso os colocou em verdadeira fúria contra Deus, pois se descobriram impotentes para mais uma coisa que desconheciam até ali.
 
     Pois foi justamente este ódio, que o inferno descarregou sobre nosso querido Jesus. Ou seja, não somente a terra estava naquele momento num ápice extremo de maldade, como também o inferno estava num ápice tremendo de fúria. Terra e infernos juntos, para matar ao Filho de Deus e redentor do Mundo. Juntos para esmagar apenas a um homem! Juntos para afrontar a Deus, até o extremo limite, do inaudito extremo.
 
Mas para nossa dor, nem tudo passou! Faltam os cravos e a Cruz!
 


 
 
 

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