Sejam Bem Vindos! Que Deus vos abençoe!

Página dedicada aos que amam as almas do Purgatório.
FAMÍLIA, FUNDAMENTO DA SALVAÇÃO
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21/12/2006
Nascimento de Jesus
 
Maria - 22 Nascimento de Jesus
Maria - 22 Nascimento de Jesus

13 NATAL DE JESUS
 
Como presente de Natal, damos aos leitores o carinho de um texto das visões da mística Maria Valtorta, sobre o nascimento de Jesus. Isso se deve ao empenho do nosso bom amigo Antonio, um professor de Portugal, que providenciou a digitação. Observem como foi incrível. Impossível não se emocionar...
 
Vejo uma estrada mestra. Nela há muita gente. Também burrinhos que vão carregando utensílios domésticos e pessoas.
O ar está limpo e seco, e o céu sereno, mas no ar há um ventinho cortante, característico do pleno Inverno. O campo, depois das colheitas, parece mais vasto, os pastos estão com a erva baixa e tostada pelos ventos de Inverno; por eles as ovelhas procuram um pouco de alimento e os raios do Sol que vêm surgindo pouco a pouco.
Elas estão muito juntas umas das outras, porque estão com frio e balem, levantando o focinho e olhando para o Sol, como se lhe quisessem dizer: "Vem logo, que está fazendo frio!". O terreno é cheio de ondulações, que se vão tornando cada vez mais nítidas. Na verdade é este um lugar de colinas. Aqui há vales cheios de árvores e de encostas, há
pequenos vales e lombadas. A estrada passa aí pelo meio e se dirige para sudeste.
Maria vai sobre o burrinho cinzento. Está toda enrolada no pesado manto. Na dianteira da sela está aquele instrumento, que eu já vi na viagem para Hebron, e por cima está o baú com as coisas mais necessárias.
José vai caminhando ao lado do burrinho de Maria, segurando a rédea. "Estás cansada?" pergunta ele de vez em quando. Maria olha para ele sorrindo e diz: "Não". Mas, na terceira vez, ela acrescenta: "Tu, sim, que estás caminhando, é que deves estar cansado"."Oh! Eu? Para mim isso não é nada. O que penso é que eu se tivesse achado outro jumento, podias estar com mais comodidade e andar um pouco mais. Mas eu não achei. Agora todos estão precisando de cavalgaduras. Mas, tem coragem! Daqui a pouco, estamos em Belém. Atrás daquele monte está Efrata".
Calam-se. A Virgem, quando não está falando, parece recolher-se em uma oração interior. Sorri, com um sorriso manso, por algum pensamento que lhe veio e, se olha para as pessoas, parece não as estar vendo, isto é, não distingui-las se é homem ou se é uma mulher, um velho, um pastor, um rico ou um pobre. O que ela vê são só pessoas.
"Estás com frio?", pergunta José. Porque o vento começa a soprar.
"Não, obrigada".
Mas José não se fia no que ela diz. Toca com as mãos os pés dela, que vão pendurados ao lado do burrinho, calçados com sandálias, e que mal se vêm apontar por debaixo da longa veste. A José eles devem estar parecendo frios, porque ele sacode a cabeça, pega numa coberta que ia levando a tiracolo e com ela envolve as pernas de Maria. Ele estende também sobre o regaço, de maneira que as mãos dela fiquem bem quentes por debaixo da coberta e do manto.
Encontram-se com um pastor, que está atravessando a estrada com o seu rebanho, passando do pasto da direita para o da esquerda. José se inclina para dizer-lhe qualquer coisa. O pastor responde que sim. José pára o burrinho e depois o vai puxando pelo pasto, atrás do rebanho. O pastor apanha uma tosca escudela de um alforge e, depois de tirar o leite de uma ovelha grande, que está com as tetas cheias, o dá na escudela a José, que o oferece a Maria.
"Deus vos abençoe aos dois", diz Maria. "A ti pelo teu amor, e a ti pela tua bondade. Eu rezarei por ti".
- "Estais vindo de longe?"
- "De Nazaré", responde José.
- "E para onde ides?"
- "Para Belém".
- "É uma viagem longa para uma mulher nesse estado. "Já têm lugar onde fi
car em Belém?"
- "Não", responde José.
- "A coisa está feia! Belém está cheia de gente vinda de toda a parte para o recenseamento ou de passagem para outro lugar. Não sei se encontrareis alojamento. Tens conhecimento do lugar?"
- "Não muito".
- "Pois bem: eu vou te ensinar.. Por causa Dela (e acena para Maria). Procura o albergue. Ele deve estar cheio. Mas eu falo nele somente para que sirva como ponto de referência. Ele fica numa praça, a maior da cidade. Vai-se até lá por esta estrada mestra. Não há engano. O albergue tem uma fonte na frente, e é largo e baixo com um grande portão. Ele estará cheio. Mas se não encontrardes lugar no albergue nem nas casas, dai a volta por detrás do albergue, para o rumo do campo. No monte há estrebarias, que às vezes servem para os mercadores que vão a Jerusalém e deixam lá seus animais, quando não acham lugar no albergue. São estrebarias, entendeis?
Estão no monte e são úmidas, frias e sem porta. Mas sempre é um refúgio, pois a mulher não pode ficar pela estrada. Talvez lá encontreis um lugar.. E feno para se poder dormir e também para o jumento. E que Deus vos acompanhe.
"E Deus te dê alegria", reponde Maria. José por sua vez responde: "A paz esteja contigo".
Retomam a estrada. Um vale bem maior se faz ver deste alto da lombada que acabam de galgar. No vale, para cima e para baixo, pelos declives suaves que o circundam, aparecem casas e mais casas. É Belém.
"Eis-nos, afinal, na terra de David, Maria. Agora descansarás, pois me pareces tão cansada.".
"Não, eu pensava . Estou apenas pensando". Maria agarra a mão de José e lhe diz com um alegre sorriso: "Acho que o tempo chegou mesmo!"
"Deus de misericórdia! Como vamos fazer?".
"Não tenhas medo, José. Procura ficar firme. Não vês como eu estou calma?".
"Mas estás sofrendo muito".
"Oh! Não. Estou cheia de alegria. Uma alegria tal, e tão forte, tão bela, tão incontrolável, que o meu coração está batendo forte, e me está dizendo: "Ele está nascendo! Ele está nascendo! A cada batida ele diz isso. É o meu Menino que está batendo à porta do meu coração, e está dizendo: "Mamãe, eu estou aqui e vim te dar o beijo de Deus". Oh! Que alegria meu José!"
Mas José não se sente invadido ela alegria Dela. Ele está pensando na necessidade urgente de encontrar um abrigo. Nada. Tudo ocupado. Chegam ao albergue. Está cheio, até por baixo dos pórticos rústicos, que circundam o grande pátio interno, com gente que acampou por ali.
José deixa Maria sobre o burrinho, dentro do pátio e sai procurando outras casas. Volta desanimado. Não se acha nada. O rápido escurecer deste tempo de Inverno já começa a se estender sobre a Terra. José vai suplicar ao albergueiro. Suplica aos viajantes, e lhes diz que eles são homens e estão com saúde, e que aqui há uma mulher que está para dar à luz um filho, e que eles tenham piedade. Mas nada.
Neste lugar está também um rico fariseu, que olha para José e Maria com um manifesto desprezo e, quando Maria se aproxima dele, ele se desvia dela como se estivesse chegando perto uma leprosa. José olha para ele, e um rubor de desdém lhe sobe ao rosto. Maria pousa a mão sobre o pulso de José, para acalmá-lo, e lhe diz: "Não insistas! Vamos. Deus providenciará".
Saem e vão acompanhando o muro do albergue. Dobram para uma estradinha encaixada entre um muro e uns casebres. Andam por detrás do albergue. Procuram. Acham umas grutas parecidas com umas adegas mais que uns estábulos de tão baixas e úmidas que são. As mais bonitas já estão ocupadas. José sente-se frustrado.
- "Escuta, o galileu!", grita-lhe um velho que vem vindo por trás. "Lá no fundo, por baixo daquele desmoronamento, existe uma toca. Quem sabe ninguém a tenha ocupado ainda".
Eles se apressam para chegarem àquela "toca". É mesmo uma toca. Por entre os escombros da construção em ruína, há uma abertura depois da qual aparece uma gruta, que nada mais é do que uma escavação feita no monte. Parecem ser os fundamentos de antiga construção que ficaram servindo de teto aos entulhos escorados por troncos de árvores. Para verem me
lhor, pois no lugar há muita pouca luz, José pega a isca e o fuzil e ascende uma lampadazinha, que ele tira do alforje trazida por ele a tiracolo. Entra e é saudado por um mugido. -"Vem, Maria. Está vazia. Ai dentro há somente um boi". José sorri. "É melhor do que nada".
Maria desce do burrinho e entra. José pendurou uma lampadazinha, em um prego
fincado em um dos troncos que estão fazendo de escoras. Por todos os lados a gruta está cheia de teias de aranha. O solo é de terra batida e todo cheio de buracos, de pedrinhas, de detritos e excrementos de animais e coberto com fragmentos de palha. Lá no fundo, o boi se vira e fica olhando com seus olhos mansos, enquanto o feno está pendente de seus beiços. Dentro da gruta há também um assento rústico e duas pedras a um canto, perto de uma fresta. A cor enegrecida daquele canto nos diz que aí dentro se costuma acender
fogo.
Maria se aproxima do boi. Ela está com frio. Maria põe as mãos no pescoço dele, para sentir a temperatura. O boi muge e deixa que ela o faça. Parece estar compreendendo. Mesmo quando José o afasta dali para tirar mais feno da manjedoura e fazer uma cama para Maria, - a manjedoura é dupla, isto é, a em que o boi come e, mais acima, uma espécie de prateleira, onde está outro feno de reserva e José apanha um bocado dele - o boi o deixa fazer tudo isso. José arranja também um lugar para o burrinho, que cansado e com fome logo se põe a comer.
José descobre por ali também um cântaro emborcado e todo amassado. Então ele sai com ele, porque lá fora já descobriu um riacho, e volta trazendo água para o burrinho. Depois, apanha um feixe de ramos que está posto em um canto, e com ele procura varrer um pouco o chão. Em seguida, estende o feno, faz com ele uma enxerga, perto do boi, no canto que está mais enxuto e resguardado. Mas é aí que ele percebe que o feno está úmido, e dá um suspiro. Passa, então a procurar acender um fogo e, com uma paciência de Jó, vai enxugando aos punhados o feno, conservando-o perto da fonte de calor.
Maria, sentada num banco e cansada, está olhando e sorrindo. Está tudo pronto. Maria se acomoda melhor sobre o feno fofo, com as costas apoiadas num tronco, José completa as alfaias, estendendo o seu manto como uma cortina sobre a abertura que serve de porta. É um resguardado muito precário. Depois, oferece pão e queijo à Virgem, e lhe dá a beber da água de um cantil.
-"Dorme agora", ele lhe diz. "Eu ficarei acordado para não deixar o fogo apagar, pois a noite esta muito fria. Por sorte, temos ainda lenha; esperemos que ela dure e seja boa para pegar fogo. Porque assim poderemos economizar o azeite para a candeia".
Maria se estende, obediente. José a cobre com o manto da própria Maria e com o dele.
- "Mas tu, ficarás com frio!".
- "Não, Maria. Eu estou perto do fogo. Procura descansar. Amanhã tudo irá melhor".
Na gruta estão colocados assim: Maria à direita, com as costas para a entrada da gruta, meio escondida pelo tronco de uma árvore e pelo corpo do boi, que está deitado sobre um estrado de palha. José está à esquerda, virado para a entrada da gruta, portanto em diagonal, tendo o rosto voltado para o fogo, e as costas para Maria. Mas ele, de vez em quando, se vira para olhar para ela, e a vê quieta, como se estivesse dormindo. José vai
quebrando seus gravetos e os vai jogando, um por um, sobre o pequeno fogo, a fim de que ele não se apague, para que produza alguma luz e para que a lenha dure mais.
Não se vê mais do que uma claridade ora mais viva, ora mais fraca, vinda do fogo. Porque o fogo se apagou e, naquela penumbra, só se destaca mesmo a brancura do boi, do rosto e das mãos de José. Tudo o mais é  só uma massa confusa dentro da pesada penumbra.
Um pequeno fogo está cochichando junto com o seu guardião.
Maria levanta um pouco a cabeça, e olha. Vê José com a cabeça inclinada sobre o peito, como se estivesse pensando, e ela mesma também fica pensando que o cansaço possa ter vencido a boa vontade que ele tem de ficar o tempo todo acordado. Maria sorri com um sorriso cheio de bondade e, fazend
o menos barulho que uma borboleta, se põe sentada e, depois de sentada, se põe de joelhos. E reza com um sorriso feliz em seu rosto. Reza de braços abertos, não propriamente cruzados, mas quase, e com as palmas viradas para o alto e para frente, e nem parece ficar cansada naquela penosa posição. Depois, se prostra com o rosto contra o feno, em uma oração ainda mais intensa. É uma longa oração..
José desperta, e pergunta três vezes a Maria: "Não estas dormindo, Maria?"
- "Estou rezando".
- "Não estas precisando de nada?"
- "Não, José".
- "Procura dormir um pouco. Ou, pelo menos, descansar".
- "Vou procurar. Mas rezar não me cansa".
- "Até logo, Maria".
- "Até logo, José".
Maria volta à sua posição. José, para não cair de novo no sono, põe-se de joelhos perto do fogo, e reza. Reza apertando as mãos sobre o rosto. Tira-as, cada vez que ele precisa ir alimentando o fogo, e depois volta à sua fervorosa oração. Com exceção do barulho da lenha que crepita no fogo e do burrinho que, de vez em quando, bate um casco no chão, não se houve mais nada. Um pouco de luar está entrando por uma fenda do teto, e parece uma lâmina de alguma prata imaterial, que se vai aproximando de Maria. A lâmina vai-se alongando, à medida que a lua vai ficando mais alta no céu e, finalmente a alcança. Agora, já está sobre a cabeça da orante, ornando-a com uma auréola de luz.
Maria levanta a cabeça, como se tivesse sido chamada por uma voz do céu e se põe de novo de joelhos. Oh! Como é belo aqui. Maria ergue de novo a cabeça que parece estar brilhando, a luz branca da lua, e um sorriso não humano a transfigura. Que é que ela estará vendo? Que estará ouvindo? Que estará experimentando? Somente Ela poderia dizer o que está vendo, ouvindo e o que experimentou na hora esplendorosa da sua Maternidade. Eu vejo apenas como, ao redor Dela, a Luz cresce, cresce, vai crescendo sempre mais. Parece descer do Céu, parece sair das pobres coisas que estão ao redor Dela, mas parece ainda mais que emanem Dela mesma.
Sua veste, de um azul escuro, parece agora de um suave celeste de miosótis. Suas mãos e seu rosto parecem ficar de um azul muito delicado, como os de alguém que fosse colocado sob o foco de uma imensa safira clara. Esta cor me faz lembrar, ainda mais tênue, as cores que eu vejo do Santo Paraíso, e também a cor que eu vi na visão da chegada dos Magos, uma cor que se vai difundindo por sobre as coisas todas e as vestes, e as vai purificando todas, e tornando-as resplandecentes.
A luz, que se desprende sempre mais do corpo de Maria, absorve a luz da lua, e parece que Ela atrai para si toda a luz que lhe pode vir do céu. Agora Ela já é a Depositária da Luz. É Ela que deve dar esta Luz ao mundo. E esta Luz beatífica, incontrolável, imensurável, eterna e divina, está para ser dada, e se anuncia como uma aurora, uma luz que vem crescendo, como um coro de átomos que vem aumentando, aumentando, como a maré que sobe, e sobe como a nuvem do incenso, para descer depois como uma enchente e estender-se como um véu.
O teto, cheio de fendas, teias de aranha, de entulhos que em cima se estendem para frente, e que estão em equilíbrio por um milagre de estática, esse teto que estava antes tão enegrecido, esfumaçado e repelente, está parecendo agora o teto de uma sala real. Cada uma das grandes pedras é um bloco de prata, cada fenda é como um lampejar de opalas, cada teia de aranha é um baldaquim precioso, confeccionado com prata e
diamantes. Uma lagartixa grande e verde, que está dormindo em letargia entre duas pedras, parece um colar de esmeraldas esquecido lá por uma rainha. Um cacho de morcegos, também em letargia, parece um precioso lampadário de ônix. O feno que está na manjedoura de cima, já não é mais uma erva: são fios e mais fios de prata pura, que tremulam no ar com a graça de uma cabeleira solta.
A manjedoura de baixo está com sua madeira de cor escura transformada em um bloco de prata brunida. As paredes estão cobertas de um brocado no qual a alvura da seda desaparece sob o bordado opalino do relevo, e o solo.. Que é
o solo agora? É como um cristal que tem acendido em si uma luz branca. As saliências são como rosas de luz projetadas em homenagem ao solo; e os próprios buracos são vasos preciosos, de onde devem emanar aromas e perfumes.
E a luz vai-se tornando cada vez mais forte. Ela já está insuportável para a nossa vista. A Virgem desaparece nela, como se estivesse sendo absorvida por um véu incandescente.. E dele surge a Mãe.
Sim, quando a luz volta a ser suportável aos meus olhos, vejo Maria já com o Filho recém-nascido nos braços. Um pequenino, todo róseo e gorducho, que agita os braços e esperneia. Tem as mãozinhas do tamanho de botões de rosa e seus pezinhos caberiam na corola de uma rosa. Ele solta vagidos em sua vozinha tremula, como um cordeirinho que acaba de nascer, abrindo a boquinha, que mais parece um moranguinho selvagem e mostrando a lingüinha que bate repetidamente contra o véu palatino. Move a cabecinha loira, que me parece quase sem cabelos, essa cabecinha redonda que a Mamãe sustenta na palma da mão, enquanto olha o menino e o adora, chorando e rindo ao mesmo tempo e se inclina para beijá-lo não em sua cabecinha, mas em seu peito, onde está batendo seu coraçãozinho, batendo por nós. É nesse coração que um dia haverá uma Ferida. E Maria, com antecipação, já medica tal ferida, com seu beijo imaculado de Mãe.
O boi, despertado pela claridade, levanta-se, fazendo um grande barulho com seus cascos, e muge, enquanto o burrinho vira a cabeça e urra. Também José que, quase extasiado, estava rezando de um modo tão recolhido, que nem sabia dar notícia do que estava acontecendo ao redor dele, também ele volta a si da oração e, por entre os dedos das mãos, que estão unidas sobre o rosto, vê filtrar-se aquela estranha luz. Tira, então, as mãos do rosto, levanta a cabeça e se vira para trás. O boi, que agora se pôs de pé, está escondendo Maria. Mas ela diz: "José, vem cá".
José se aproxima dela. E, ao ver, pára dominado por um sentimento de reverência, e está para cair de joelhos lá mesmo no lugar em que está. Mas Maria insiste, dizendo: "Vem cá, José" e, firmando a mão esquerda sobre o feno, com a direita Ela segura apertado contra o seu coração o menino e se levanta, indo ao encontro de José, que vem caminhando à maneira de um trôpego, embaraçado por causa do contraste entre o seu desejo de andar e o temor de estar sendo irreverente. Aos pés do catre, os dois esposos se encontram e olham um para o outro num só e feliz choro.
"Vem, vamos oferecer Jesus ao Pai", diz Maria. E, enquanto José se ajoelha, Ela se põe de pé entre dois troncos que sustentam o teto, levanta o Filho em seus braços, e diz: "Eis-me aqui, senhor. Por Ele, o Deus, eu te digo esta palavra. Eis-me aqui para fazer a tua vontade. E com Ele, eu, Maria e José, meu esposo. Eis-nos aqui, nós teus servos, senhor! Seja feita sempre por nós, em toda a hora e em todos os acontecimentos, a tua vontade, para a tua glória e pelo teu amor".
Depois, Maria se inclina e diz: "Pega-o, José", e lhe oferece o Menino."Eu? E tu o entregas a mim? Oh! Não! Eu não sou digno". José está completamente apavorado, e se sente aniquilado, só diante da idéia de ter que tocar em Deus.
Mas Maria
insiste com ele, sorrindo: "Tu és bem digno disso, sim. Ninguém o é mais do que tu, e para isso é que o Altíssimo te escolheu. Pega-o, José, e segura-o, enquanto eu vou buscar os paninhos".
José, vermelho como escarlate, estende os braços e pega aquele embrulhinho de carne que está gritando de frio, e quando já está com Ele nos braços, não se deixa mais levar pela vontade de tê-lo afastado do corpo pelo respeito, mas o aperta ao coração, dizendo numa grande explosão de pranto: "Oh! Senhor! Oh! meu Deus!", e, ao inclinar-se para beijar-lhe os pezinhos, percebe que eles estão frios e, então, senta-se no chão e o põe em seu colo e, com a veste marrom e com suas mãos, procura cobri-lo, aquecê-lo e defendê-lo do vento frio da noite. Ele bem que gostaria de ir para perto do fogo, mas por lá passa a
quela corrente de ar, que entra pela porta. É melhor ficar entre os animais que servem de escudo contra o ar, e que produzem calor. E, assim pensando, vai ficar entre o boi e o jumento, e se coloca com as costas para a porta, inclinando-se sobre o Recém-Nascido, fazendo do seu peito um nicho, cujas paredes laterais são: uma cabeça cinzenta com longas orelhas e um grande focinho branco, com um nariz que solta um vapor quente,
e com os olhos úmidos e cheios de bondade.
Maria abriu o baú, e dele tirou linhos e cueiros. Depois foi para perto do fogo e aqueceu os paninhos. Agora Ela vai a José, envolve o Menino naqueles tecidos mornos e no seu véu para proteger-lhe a cabecinha. "Onde vamos colocá-lo agora?", ela pergunta.
José está olhando ao redor, e está pensando. "Espera", diz ele. "Vamos afastar os animais um pouco para lá, e o feno deles também. Depois jogamos para baixo aquele feno que está lá em cima e o colocamos aqui dentro. A madeira da beirada protegerá o Menino do ar frio, o feno lhe servirá de travesseiro, e o boi com seu hálito o aquecerá um pouco. Para isso é melhor o boi. Ele é mais paciente e sossegado". E José põe mãos à obra, enquanto
Maria nina o seu Menino, apertando-o ao coração, e conservando sua face sobre a cabecinha para dar-lhe mais algum calor.
José atiça o fogo, sem economizar mais a lenha, para conseguir uma boa chama, esquentar o feno, e à medida que o vai enxugando, para que não se esfrie, o vai colocando no peito. Depois, quando já apanhou o bastante para fazer um colchãozinho para o Menino, vai até à manjedoura e o põe, de modo a tomar a forma de um pequeno berço. "Está pronto", diz ele. "Agora precisaríamos de uma coberta, para cobrir o Menino, pois o frio está forte.""Toma o meu manto", diz Maria."Mas tu ficarás com frio"
"Oh! Não faz mal! O cobertor é áspero demais. O manto é macio e quente. Eu não tenho frio algum. Mas quero que Ele não sofra mais!".

José pega, então o grande manto de lã macia, de cor azul clara, e o coloca dobrado sobre o feno, com uma beirada que fica pendurada para fora da manjedoura. Assim, o primeiro leito do Salvador ficou pronto.
E a Mãe, com passos cheios de graça e de doçura, o leva e lá o coloca com a beirada pendente do manto, ajeitando-o também ao redor da cabecinha descoberta que já começou a afundar-se no feno, protegida contra sua aspereza apenas pelo leve véu de Maria. Permanece descoberto somente o rostinho do tamanho do punho de um homem, e os dois, inclinados sobre a manjedoura, o ficam olhando felizes, enquanto Ele dorme o seu primeiro sono, porque o calor bom dos cueiros e do feno lhe acalmou o choro, e o doce Jesus conciliou o sono. (fim)
 
Este foi o primeiro dia da verdadeira Luz. Imaginem um Deus, Todo Poderoso, vir a nascer no meio de uma esterqueira. Tendo o bafo de animais por calor, o cheiro de um estábulo por perfume. Ele nasceu entre morcegos, aranhas, e lagartixas, não tendo um berço quentinho, apenas um cocho de animais para recosto.
 
Impossível não se emocionar, comparando com nossa vida, com o que temos, com tudo que cercou nosso próprio nascimento. Triste é saber que os homens trocam hoje a Luz que ainda brilho nesta manjedoura, pelo falso néon do mundo, pelo comércio rico e cheio de presentes, quando nosso Presente Maior é cada vez mais ignorado.
 
O mundo voltará a ser simples como antigamente, mas rico de amor como nunca. Que as palavras desta revelação nos animem no caminhar que falta. Vem agora a Cruz, para a Igreja e para nós, mas Jesus passou por ela e nos deu exemplo de como vencer.
 
Então todos os dias serão Natal. Todos os dias, nós veremos Jesus! E viveremos na Luz! E haverá para sempre, paz na terra aos homens que amam a Deus sobre todas as coisas!
 
Feliz Natal, cheio deste Menino fofinho que agora treme de frio devido ao gelo das almas que O desprezam! Aqueçamo-lO com o fogo do amor de nossos corações.
 
Arnaldo
 
 


 
 
 

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