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FAMÍLIA, FUNDAMENTO DA SALVAÇÃO
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05/04/2012
Aos desobedientes
 
O Papa - Aos desobedientes
5/4/2012 21:39:29

O Papa - Aos desobedientes


A verdadeira renovação eclesial
Posted: 05 Apr 2012 08:03 AM PDT

Homilia do Papa Bento XVI
Missa Crismal – 05/04/2012

Amados irmãos e irmãs!

Nesta  Santa Missa, o nossopensamento volta àquela hora em que o Bispo,  através da imposição das mãos e daoração consacratória, nos integrou no  sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos«consagrados na verdade» (Jo 17,  19), como Jesus pediu ao Pai nasua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a  Verdade. Consagrou-nos, isto é,entregou-nos para sempre a Deus, a fim de  que, a partir de Deus e em vistad’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas  somos também consagrados na realidadeda nossa vida? Somos homens que  actuam a partir de Deus e em comunhão com JesusCristo? Com esta  pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele.«Quereis viver  mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele,renunciando a  vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor deCristo  e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa  OrdenaçãoSacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois  desta homilia, será  dirigida singularmentea cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas  sobretudo duas coisas: umaunião íntima, mais ainda, uma configuração a  Cristo e, condição necessária paraisso mesmo, uma superação de nós  mesmos, uma renúncia àquilo que éexclusivamente nosso, à tão falada  auto-realização. É-nos pedido que nãoreivindique a minha vida para mim  mesmo, mas a coloque à disposição de outrem:de Cristo. Que não pergunte:  Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doara Ele e, por Ele, aos  outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deverealizar esta  configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá.Como se  deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente,  num país europeu, um grupo desacerdotes publicou um apelo à  desobediência, referindo ao mesmo tempo tambémexemplos concretos de como  exprimir esta desobediência, que deveria ignoraraté me smo decisões  definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questãorelativa à  Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João PauloII  declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte  doSenhor, qualquer autorização para o fazer. Seráa desobediência um  caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aosautores deste  apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move,quando  afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão  dasInstituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para  colocar aIgreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um  caminho adesobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a  Cristo que é opressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulsodesesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo osnossos desejos e as nossas ideias?

Mas  o problema não é assim tãosimples. Porventura Cristo não corrigiu as  tradições humanas que ameaçavamsufocar a palavra e a vontade de Deus? É  verdade que o fez, mas para despertarnovamente a obediência à verdadeira  vontade de Deus, à sua palavra sempreválida. O que Ele tinha a peito  era precisamente a verdadeira obediência,contra o arbítrio do homem. E  não esqueçamos que Ele era o Filho, com asingular autoridade e  responsabilidade de desvendar a autêntica vontade deDeus, para deste  modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dosgentios. E, por  fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própriaobediência e  humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não sefaça a  minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a  suahumildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos  interpelar por maisuma questão: Não
será que, com tais considerações, o  que na realidade sedefende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não!  Quem observa a história doperíodo pós-conciliar pode reconhecer a  dinâmica da verdadeira renovação, quefrequentemente assumiu formas  inesperadas em movimentos cheios de vida e quetornam quase palpável a  vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e aacção eficaz do  Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quemdimanaram, e  dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para umanova  fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade  daobediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração aCristo é o pressuposto e a base de toda a renovação.  Mas talvez a figura deCristo nos apareça por vezes demasiado alta e  grande para podermos ousar tomaras suas medidas. O Senhor sabe-o. Por  isso providenciou «traduções» em ordensde grandeza mais acessíveis e  próximas de nós. Precisamente por este motivo,São Paulo resolutamente  diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço aCristo. Ele era  para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo,que eles  podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo detoda a  história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de  Jesusem figuras históricas vivas. Nós,sacerdotes, podemos pensar numa  série imensa de sacerdotes santos que vão ànossa frente para nos  apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna eInácio de   Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho  eGregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria  Vianney,até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente,  ao Papa JoãoPaulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de  exemplo naconfiguração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos  indicam-nos como funcionaa renovação e como podemos servi-la. E  fazem-nos compreender também que Deusnão olha para os grandes números  nem para os êxitos exteriores, mas consegue assuas vitórias sob o sinal  humilde do grão de mostarda.

Queridos  amigos, queria ainda,brevemente, acenar a duas palavras-chave da  renovação das promessassacerdotais, que deveriam induzir-nos a reflectir  nesta hora da Igreja e danossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos  recordado o facto de sermos – comose exprime Paulo - «dispensadores dos  mistérios de Deus» (1 Cor 4,1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o munus docendi,  queconstitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de  Deus, ondeEle nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si  mesmo. No encontrodos Cardeais por ocasião do recente Consistório,  diversos Pastores, baseando-sena sua experiência, falaram dum  analfabetismo religioso que cresce no meiodesta nossa sociedade tão  inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que nopassado toda e  qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, parase poder  viver e amar a nossa fé,  para se poder amar a Deus e,consequentemente,  tornar-se capaz de O ouvir correctamente, devemos saberaquilo que Deus  nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocadospela sua  palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura doConcílio  Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos amensagem  da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua  formafundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada  Escritura, quenão leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto,  porém, todossentimos necessidade de um auxílio para a transmitir  rectamente no presente, demodo que toque verdadeiramente o nosso  coração. Este auxílio encontramo-lo, emprimeiro lugar, na palavra da  Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano IIe o Catecismo da
Igreja Católica são  os instrumentosessenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo  que a Igreja acreditaa partir da Palavra de Deus. E naturalmen te faz  parte de tal auxílio todo otesouro dos documentos que o Papa João Paulo  II nos deu e que está ainda longede ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio se deveconfrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniõesprivadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores.  Isto, porém, nãodeve naturalmente significar que eu não sustente esta  doutrina com todo o meuser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste  contexto, sempre me vem àmente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que  há de mais meu do que eupróprio? E no entanto que há de menos meu do que  o sou eu mesmo? Não mepertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo  precisamente pelo facto de meultrapassar a mim próprio e é através da  superação de mim próprio que consigoinserir-me em Cristo e no seu Corpo  que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nósmesmos e se, intimamente, nos  tornamos um só com Aquele que nos chamou parasermos seus mensageiros de  tal modo qu e sejamos plasmados pela fé e a vivamos,então a nossa  pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, masdou-me a  mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, umintelectual.  Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque elemesmo  fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a queainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus).  É umaexpressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns  ambientes, otermo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque  – diz-se –exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro  de dividir o homem.Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo  e alma à eternidade. Masisso não pode significar que já não temos uma  alma, um princípio constitutivoque garante a unidade do homem durante a  sua vida e para além da sua morteterrena. E, enquanto sacerdotes,  preocupamo-nos naturalmente com o homeminteiro, incluindo precisamente  as suas necessidades físicas: com os famintos,os doentes, os sem-abrigo;  contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mastambém com as  necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido  àviolação do direito ou por um a mor desfeito; com as pessoas que,  relativamenteà verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta  de verdade e deamor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e  alma. E, enquantosacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As  pessoas não devem jamais tera sensação de que o nosso horário de  trabalho cumprimo-lo conscienciosamente,mas antes e depois  pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca sepertence a si  mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qualtestemunhamos  de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhorque nos  encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir,  comjubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amen.
Fonte: Boletimda Sala de Imprensa da Santa Sé

 
 
 

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